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A DOENÇA DA INTERPRETAÇÃO: A URGÊNCIA DE UM COPO-SEM-ÓRGÃOS

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Por José Barbosa Acredito que o filme Mãe de Darren Aronofsky tenha sido a última grande experiência da doença interpretativa relacionada às produções artísticas. O fenômeno é extremamente simplista. Tão simplista quanto a natureza dos argumentos e fundamentações de seus executores. É irresistível para eles injetar um sentido nas obras de arte e, pior do que isso, injetar um sentido sempre tendencioso e carregado de manobras que visam a autoafirmação e a promoção de seus próprios modelos de vida. A raiz disso está claramente na distorção de princípios básicos que passaram a fundamentar a pós-modernidade e ainda mais a trans-modernidade. A Obra Aberta (1962), de Umberto Eco , fez ecoar no cenário da crítica artística, da semiótica e da teoria da literatura, a possibilidade de que os esquemas de construção semiótica na dimensão da arte eram abertos o suficiente para exigirem de seus receptores a atividade de sua conclusão e de seu devido encerramento. Eco precisou corrigir em ...

Campanha à não-virtude

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Ilustração de Nana Larsson /@drawaweek Estou tranquilamente convencida de que as coisas das quais tenho construído, problematizado, pensado, serão substituídas e minha produção ou a produção dos que pensam com proximidade ao que penso serão superadas. É para ser assim, pois não escrevo para pessoas do futuro. Me preocupo com a inteireza do agora. As doenças de agora. As questões da mulher que já existe . Também compreendo que não existe nada de novo no que falo, mas há uma novidade histórica na minha história quando percebo que existem possibilidades de convívio e transpassamento saudáveis . E, para tanto, convido todxs de maneira prática, a uma campanha de negação da virtude. Eu não sou uma mulher virtuosa . E preciso partir da definição de Platão de virtude que o cristianismo aderiu mais tarde: eu não me encaixo nesse padrão . Explico. Platão considera como virtude a capacidade de dominar o corpo perante as paixões . Ele separa corpo e alma em duas entidades distintas q...

Uma Longa Temporada no Incerto

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Por Anielson Ribeiro Me sinto antigo e turvo. O passado se ergue como uma noite dentro da Noite. Quanto de juventude cabe nesse vórtice e em sua fome infinita a que chamamos memória? Há uma cidade por trás da noite: a cidade dos mortos. Sinto seu olhar colossal a me espreitar. Sinto seu estômago nervoso roncando. Aqui dentro, parece que tudo foi quebrado. Minha linguagem está perdida. Por isso, não há como convocar a ajuda necessária para me fazer entendível. Só quero que saibam que é noite e faz frio lá fora (coisa rara nesse sertão baiano). Eu sei que parece um convite, mas é uma armadilha. Como um gato faminto observa o pássaro. Às três da tarde, recebi uma chamada, lembro que falamos sobre o clima, e era mormaço. Agora essas nuvens e essa brisa fria. Sinto um pigarro. Minha garganta coça. É um turbilhão de frases de emancipação exigindo escarro. Minha laringe é uma estrada ligando-se à cidade dos mortos insepultos dos Palmares, dos Kaiowas, dos realocados e dos trabalhador...

O que atravessa o autoconceito?

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O esvaziamento é uma característica latente do capitalismo, sendo notável em diversos assuntos complexos que ganham formas mais simplistas, seja na análise ou na sua divulgação nas redes sociais.  O boom do empoderamento, ecoando em aspectos como o autoconceito, nos aproxima de postagens que mencionam frases como “você é linda”, “você é foda” e variantes.  De fato não há problemas nas frases, mas me pego pensando sobre como construímos o nosso autoconceito e como somos bombardeados por questões meramente estéticas.  Segundo Feist (2015), baseado em Carl Rogers, o autoconceito diz respeito às experiências percebidas pela consciência e os aspectos do ser.  Será que cabe pensar em um empoderamento individual-estético quando diversos sujeitos não têm subsídios para refletir sobre si e o mundo ao seu redor? É necessário pensar no mundo como uma grande teia interligada e profunda, em que a percepção de si está diretamente ligada a fatores como acesso à cultura, esporte...

Vaidade tropical secreta

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Ilustração do próprio autor. Por John Williams B. Há tanta vaidade nos trópicos de cá, um número exorbitantemente superior que a rasa e pálida verdade, alguns diriam que estes tempos são o prenúncio do tal apocalipse, alguns creem nisso outros em nada creem e talvez ambos sejam infelizes, ou não. Existem diversas possibilidades para alcançar a felicidade: filho, amor, poder, conhecimento, dinheiro, etc. ainda assim, poucos a possuem integralmente, mesmo numa busca incessante de orgasmos vitais à alma o corpo e a mente envelhecem, adoecem e são desativados, fato. Outrora vi a felicidade em sua representação máxima no brilho de um olhar novo e sabia indubitavelmente que nada, nada mesmo, superaria aquele semblante recém-criado, nascida para me vencer, sempre. As cores do mundo nas cidades indóceis criam anomalias nas centenas de milhares de cabeças estagnadas entre a maldade e o ceticismo, tais monstruosidades surgem para assumir a culpa dos excessos da violência sem motivação ...

O Discurso da Humildade

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Por José Barbosa Ouça o que o completo estranho ao seu lado tem para lhe dizer. Supondo que os leitores dessas palavras, assim como aquele que as escreve, são filhos de uma cultura acadêmica de Humanas, vocês compreendem que chegamos a um momento da vida em que os livros nos silenciam. Os livros, os artigos acadêmicos, as palestras de especialistas nas áreas de linguística, teoria da literatura, semiótica etc. Silenciam aquela antiga maneira que tínhamos de interagir com a existência imediata das coisas. Espero que você, estudante de humanas, esteja me compreendendo pois é exatamente para você que escrevo. Trabalhamos com conceitos. Isso é o básico. Deveríamos desde o primeiro período de nossos cursos compreender que tudo o que temos diante de nós são criações do pensamento, elaborações da inteligência. Conceitos. Há em nossa cultura humanista o pressuposto da liberdade do pensamento. É almejando esse lugar onde o individuo possa exercer plenamente a sua liberdad...